sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pela glória de Rá

Sério, certas histórias não podem ser inventadas. Só quem já ficou muito bêbado entende que, quanto maior a loucura, menores são as chances dela ter sido inventada. Eu não tô postando muito aqui porque quase ninguém lê essa porra, mas essa história merece ser lida, nem que seja por meia dúzia de pessoas.

Sexta-feira. Aniversário de um amigão meu aqui, o Taylor. Depois do trampo, vou na casa do cara. Cerveja, churrasco (tipo Australiano = lixo), Jim Beam... tudo na faixa. O cara é cheio da grana, então só tinha cerveja fina, o que me fez beber mais do que o normal. Além disso, tá uns 32 graus aqui, o que também colaborou pra eu aumentar a dose. Resultado: volto TOTALMENTE MALUCO pra casa, sei lá que horas.

E aí começa a insanidade.

Eu formatei meu laptop há uns 3 dias, e desde então o puto tá me pedindo pra fazer um download de 700 mega pra atualizações. Eu fico adiando, mas eis que, BÊBADO E ÀS ??:?? DA MADRUGADA, decido que a hora não poderia ser mais apropriada pra fazer a porra do download. Como tá quente pra cacete e eu ainda não comprei um ventilador, o que eu faço pra aliviar? Cervejinha, claro. Imagine a cena: ??:?? da madrugada, eu sentado em frente ao meu computador, olhando a porcentagem dos números mudando lentamente, tomando minha cervejinha e pensando em sabe-se lá o quê.

Mas calma. Fica muito melhor.

Estou bêbado e entediado, uma combinação perigosa. E, como qualquer combinação perigosa, há um fator extra pra deixá-la ainda mais maluca: eu tinha comprado uma bateria eletrônica NAQUELE MESMO DIA, e nada parece ser mais conveniente do que tocar um System of a Down na calada da noite.

Depois de mandar BYOB, alguém me cutuca no ombro. Normalmente eu pularia dois metros de susto, mas como estou bêbado quase nem me incomodo.

“Yep?”

É a Nikki, australiana lésbica que mora comigo. Ela tá com aquela cara amassada clássica de quem não apenas acordou, mas FOI ACORDADA.

“Dude, it’s [some time I can’t remember] in the middle of the night.”

“I know, but I’m bored.”

“But dude... it’s [some time I can’t remember] in the middle of the FUCKING night.”

Ainda sem entender o motivo dela estar tão brava, desisto de tocar. Não porque ela pediu (todo mundo sabe que bêbados fazem o contrário do que qualquer pessoa pede), mas porque tocar bateria me impede de tomar cerveja. E porque tá me fazer soar como um porco numa maldita sauna.

Umas duas latas depois, eu apago.

De repente, sinto o sol batendo na minha cara. Abro os olhos. Estou dormindo na sala. Não faz o menor sentido. Cogito a ideia do Steve (amigo canadense maluco) ter vindo dormir na minha casa porque o apê dele ficava longe da festa do Taylor. Volto pro quarto. Não, ele não tá lá. O quarto tá vazio. Eu rio. O Steve nem tava na festa do Taylor, me recordo. Então porque diabos eu dormi na sala? Sei lá.

Enquanto ando em direção a lugar algum na casa, percebo o essencial: ainda estou bêbado. Desidratado, boca seca pra caralho, gosto de cerveja ainda lingering on my tongue. Então me bate o desespero:

CARALHO, TENHO QUE IR TRABALHAR!

Corro pro quarto em busca do meu celular. Tenho que começar às 10:00, então tem que ser no máximo 9:40 pra eu poder pegar o trem e chegar a tempo. Olho no meu celular. Nada. Tela preta. WHAT THE FUCK? Não tenho nenhuma lembrança de ter jogado ele na água ou qualquer coisa, então só pode ser a bateria. Em um devaneio típico de bêbado, porém, não consigo lembrar onde botei o carregador. Além disso, meu Nokia idiota não permite que eu ligue o celular logo depois de começar a carregar, então é inútil tentar.

FUDEU. QUE HORAS SÃO, PORRA?

Ainda bêbado, ando pelo casa em busca de um relógio. Já estou cogitando coisas insanas, mas tenho certeza que não chegará a esse ponto. Calma, Diogo. Você vai achar um.

Não acho um relógio. Bate o desespero.

O COMPUTADOR, IMBECIL! ABRE O LAPTOP E VÊ AS HORAS LÁ.

Ótima ideia! Sento na minha confortável cadeira de couro e, menos desesperado (mas ainda ansioso), ligo meu HP.

WINDOWS UPDATE. INSTALLING COMPONENTS. 1 OF 63.

(sei que parece que é invenção, mas juro que tinha 63 componentes a serem instalados.)

Pronto, agora estou oficialmente em pânico. Sem celuar, relógio, ou computador, não tenho como saber que horas são. O que fazer?

Então me lembro de como acordei. O raio de sol bateu no meu rosto, como uma prostituta desdentada esbofetando um cliente caipira depois dele sugerir pagá-la com ovos de ganso.

"DO IT ANCIENT STYLE," eu digo pra mim mesmo, solucionando o mistério. "VOCÊ PODE SE ORIENTAR PELA POSIÇÃO DO SOL NO CÉU!"

Dito e feito. Abro a porta da varanda, asilo meus ébrios olhos do sol escaldante, e tento dar um palpite aproximado.

Resumo da ópera: eu não apenas convenço a mim mesmo que já são mais de 10 e de que estou fodidamente atrasado, mas também que são aproximadamente 11:20, 11:30. Sim, eu tinha bebido pra cacete na noite passada.

Troco de roupa o mais rápido possível e, antes de sair, confiro o monitor. 12%. Vai se fuder, Bill Gates.

Quando tava correndo em direção à estação de trem, vejo um cara passando. O que eu faço então? Pergunto as horas pra ele, certo?

CLARO QUE NÃO. Pô, eu tô bêbado e 100% seguro das minhas capacidades de saber as horas pela posição do sol. Pra quê perder mais meu tempo? Além disso, o cara era asiático, e eu não tava tão desesperado assim (OK, isso foi só pra tentar causar uma ciber-polêmica sobre xenofobismo pra que mais pessoas fiquem sabendo do meu blog.)

Quando eu chego na estação, dou uma olhada rápida na tela dos horários dos trens pra saber quando o próximo vem. E é então que percebo que minha habilidade de "Ler o Sol" não é tão acurada quanto pensei.

8:50. Sim. Errei por três horas. TRÊS HORAS. E ainda tenho uma hora até meu shift começar. Puta merda.

Sei que é realmente ridículo e nada crível, mas você tem que considerar o seguinte antes de dizer que isso foi inventado:

1) eu ainda tava bêbado;

2) mesmo se não tivesse, quem consegue se orientar pelo SOL, pô!

3) ainda tinha a porra do horário de verão

BÔNUS: eu tinha esquecido a minha carteira, o que significa que eu não conseguiria pegar o trem de qualquer forma, porque estava sem ticket. Que manhã linda.

Lição de hoje:

"Você sabe que bebeu pra caralho na noite anterior quando acorda pensando que pode dizer as horas observando a posição do sol no céu"


(nota final: quando o computador acabou o update, eu já tinha tomado um banho e uma xícara de café, o que me fez ponderar se eu tinha que trabalhar mesmo aquele dia. Sei que seria mais engraçado se eu tivesse errado o dia também, mas infelizmente não quero acrescentar nenhuma mentira nessa história. Sim, eu tinha mesmo que trabalhar aquele dia. Mas não era às 10:00, e sim às 12:00.)

(nota extra: essa história tem que ser imaginada sob o seguinte detalhe: eu estava no dia 14 do movember, e tinha feito a barba - mas não o bigode, claro - naquele mesmo dia.)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Uma ode ao Saldanha

Tive um exercício no qual eu tinha que colocar dois ídolos falecidos (um da música e outro da literatura) conversando. Fiquei satisfeito com o que eu fiz, mas depois reli e vi que ficou a coisa mais aluno da FACOM da minha vida. Logo, dei dois títulos.

The importance of being dead

(aka - A Saldanha's Tale)

“We’re dead, aren’t we?” a voice says.

“No. We’re immortals.”

“Hum.”

The two men are atop a mountain, its peak so high up that almost touches the stars. But it doesn’t need to. There are already two stars perched over its lushy, green meadow.

“Why are you sitting in a throne?” one of them asks.

“Because I’m the Queen.”

“I like your style. Had we lived in the same time, we’d have been best friends.”

“Agreed. Maybe best lovers.”

The one who’s standing smiles, and then starts to wander around.

“I was imprisoned for being gay, you know?” he says.

“And I killed myself for being crazy.”

“Suicide?”

“No. Unprotected sex in the 80s.”

“Almost the same thing.”

There is a thick mist hovering all around, but the egos of these two men are so big and adamant that not even the white fog seems massive enough to cloud their presence.

“How do you think the world down there is doing without us?” the one on the throne asks.

“There are people who can match up to us, I guess.”

They both laugh, tilting their heads back, blowing wisps of cold smoke along with the loud sound of their sceptical laughers.

“We were unique, and there’s no chance that someone as witty and talented as us has been born since we departed.”

“You forgot to add humble to this list.”

“Yes, my dear. And humble.”

They fall silent for a minute, and the one standing up walks to the edge of the mountain. He tries to gaze at the world below his feet, but it seems to be too far, too bland, too uninteresting.

“You know what?” he says, giving up on trying to see some life in the world he once lived in. “I bet we could write a great love song. Not as good as the things you wrote, but I think we should give it a go.”

“Gotta a title yet?”

“Yes. Immortals in a dead world.”

The man sitting in the throne caresses his moustache, contemplative.

Immortals in a dead world. Written by F. Mercury and O. Wilde. Yeah, something good could come out of it. But don’t count on MTV to promote it. A friend from Seattle told me they just play shit nowadays.”